Guidão-Penalva
O meu avô materno recebeu o nome de Américo Diniz; dois nomes apenas, um total simples. O apelido recebeu-o do pai, à data Gastão Diniz, mas nascido (diz-se) José Diniz.
Quanto ao primeiro nome, sempre pensei que o recebera também do pai, precisamente a propósito desta mudança de nome, de cujos motivos sei muito pouco: segundo consta, José Diniz terá viajado para o Brasil e, regressado à sua pequena aldeia de Vila Franca da Beira, a América do Sul baptizara-o Gastão. Alguma desventura o terá levado a voltar ao sítio onde nascera deixando José para trás; qualquer coisa desse espírito inquieto pretendeu certamente passar para o filho.
Por várias
vezes o meu avô viria a ensaiar extensões e variações do seu nome
que fossem capazes de fazer jus aos diversos mistérios da sua própria origem.
Assinou Guidão, a certa altura, pois descenderia o pai da família de
judeus marranos dos 'Guidões' – nunca consegui confirmar tal afiliação,
precisamente por ser tão difícil retomar o rasto de José depois de Gastão.
As informações de que disponho limitam-se a que José terá nascido no Ervedal, por volta de 1886, e que a sua mãe se chamava Maria José. Encontro, assim, o seguinte assento de baptismo, de 3 de Janeiro de 1886; perfeito segundo todos os critérios:
Jozé
da Cruz, diz-nos o registo, seria filho de Joaquim Marques Diniz e
Maria José. Ora, bate certo o nome da mãe, o apelido do pai... Seria
ainda neto, pela via materna, de um José da Costa Guidão, casado com
Rosa Henriques. Seriam estes os 'Guidões' da lenda familiar? Muitas
coincidências. Mas o averbamento faz cair por terra qualquer teoria que a
partir delas pudéssemos articular: este José morreu um mês depois,
lê-se, a 3 de Fevereiro de 1886.
Sendo assim, José ainda anda por aí à solta. Uma parte de mim congeminou uma hipótese mais radical: Gastão, regressado do Brasil, põe em bom uso a cumplicidade de que gozava com o padre (disto me falou o meu avô). Entra na sacristia e corrige o erro cósmico que a viagem ao Brasil originou, averbando a sua própria morte prematura. Afinal, José nunca existiu. Gastão viverá por ele.
☙
As histórias de judeus só são suplantadas no índice de popularidade genealógica pela lenda das origens nobres. Além de Guidão, o meu avô usou por vezes o apelido "Penalva," associando-se assim ao viscondado de Penalva de Alva – título nobiliárquico atríbuido por D. Luís I a 8 de Fevereiro de 1877, em favor de José Rodrigues Penalva.
José Rodrigues Penalva nasceu na Covilhã a 8 de Fevereiro de 1811. Emigrou para o Brasil, fez fortuna, e casou-se com Eugénia Henriqueta Alves Valdez, filha dos Condes de Bonfim. Morreu em Lisboa, no ano de 1881. Se houvesse verdade na história deste sobrenome do meu avô, estaria algures entre esta família.
Ora, regressando à minha
própria árvore e suas histórias, o que se contava era que havia uma
menina, de boas famílias, que tinha um professor de piano. O professor
de piano e a menina apaixonam-se e fogem juntos. Esta nova família cai de certa forma em desgraça mas a aristocracia tem memória
geracional: a minha trisavó, Miquelina de Brito Geraldes, que deste ramo proviria, será recordada pelos seus netos como uma senhora à volta de quem o ar e a luz têm regras diferentes; "sempre com boa postura."
Quando comecei esta investigação, fui ao cemitério do Alto de S. João confirmar alguns dados relativos ao falecimento de Miquelina. Aí, descobri (por simpatia dos funcionários) o nome dos seus pais: Teodósio Mendes de Brito e Maria Margarida de Figueiredo Penalva. Anos mais tarde, quando retomei a investigação dos Penalva de Alva, parecia-me evidente que teria de começar por Maria Margarida. Seria ela a menina fugidia, e seria Teodósio o seu professor?
Na internet, facilmente se chega a uma descrição da árvore genealógica de José Rodrigues Penalva (o tal visconde). Nela não surge nunca menção de Margarida; surge sim, e aqui despertou o meu interesse, o nome da irmã de José: Miquelina Rosa Rodrigues Penalva, sendo ambos filhos de João Rodrigues Penalva; surge ainda, noutra coincidência, o nome do esposo de Miquelina: João António de Figueiredo e Almeida. Aqui deixo a 'página' de Miquelina
e a descrição abaixo, da Resenha das Familias Titulares e Grandes de Portugal, de 1890, um outro exemplo, não indicando o nome completo de João António.
O nome da minha tetravó – Maria Margarida de Figueiredo Penalva – facilmente encaixa neste puzzle – Penalva da mãe, Figueiredo do pai. Encaixa também o nome da filha, visto que não custa imaginar que Maria Margarida lhe teria dado o nome da sua mãe: Miquelina. Contudo, lia-se na árvore disponibilizada online que Miquelina Rosa Penalva e João António de Figueiredo e Almeida tinham tido apenas duas filhas: Felismina Albertina Penalva de Figueiredo e Maria Josefina Amélia Penalva de Figueiredo. Mas se a história da fuga fosse mesmo verídica, poderia a ausência de uma peça revelar o puzzle completo? Afinal, a árvore online tinha por “fontes” a “correspondência de José Rodrigues Penalva.” A fugitiva podia simplesmente ter sido ignorada, conquanto pudesse ser tudo fruto de uma enorme série de coincidências.
A hipótese era tentadora. Mas supondo que Margarida fora apagada das fontes pessoais seria então necessário encontrá-la nas fontes oficiais. Os dados que tinha recolhido uns anos antes no Alto de São João permitiram-me fazê-lo, e foi precisamente através do registo de baptismo de Miquelina (a sua filha, não a irmã do visconde) que o fiz.
O capricho do padre regia o detalhe do assento; agradeço o rigor do Prior José Mendes Alçada, da paróquia de Alcongosta, que anotou não apenas os nomes dos pais de Miquelina (Maria Margarida e Teodósio) mas também os dos seus avós maternos: João António de Figueiredo e Miquelina Roza Penalva. Duas conclusões:
1. A memória familiar estava um pouco deturpada e era necessário corrigir a lenda. Era afinal o irmão de Miquelina, minha antepassada, que tinha recebido o viscondado. A nobreza passou-nos ao lado;
2. Mas Maria Margarida era mesmo filha de Miquelina Rosa Penalva e de João António de Figueiredo – o registo de casamento com Teodósio também o confirma. Para investigações futuras ficará a mesma pergunta, repescada com a urgência de uma lenda que vai ganhando peso e forma: será que Margarida fugiu mesmo com o professor de piano, e terá por isso ficado esquecida dos registos oficiais da família?
☙
Uns apagam filhos; outros apagam-se a si próprios. Entre dois antepassados rasurados, o meu avô acabaria por prescindir dos dois nomes extra. Ao contrário do pai, guardaria até ao fim da vida o nome com que nasceu. Talvez só sirva isso para provar que, afinal, moram sempre fantasmas nos nomes, naqueles que escolhemos e naqueles que apagamos.



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